vou contar uma coisa (um segredo do fundo de dentro)

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[sempre batendo na mesma tecla, a artista propõe o inesperado e compõe o incomum]

não sou uma boa pessoa, nem sou má
só cheia de culpa por não ser simplesmente boa

quando acordo arrasto minha cabeça pela sala
fazer café, olha essa pia perdida, imundice de vida!

atos diversos (rápidos, suados)
se descarregam do meu corpo como de um lotação

mui(n)to & (as)sociais (minto meus ais)
é a miséria de um ego enorme se achando d+

um amor maior que a barriga
come língua todos os dias (várias e muitas)

o cursor pulsando alto

acho que porque logo partiremos
nossas peles grudadas
cinzas fixadas com laquê de maquiagem
a canção de amor ‘eu&você’ um enorme sucesso de multidão
(tão fácil essa manipulação!)

eu canto meu grito ambíguo
que repito sem parar
boa ou não, sem esperar que me louvem ou me ouçam

o que eu quero é o grito!

perdura

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eu me deixo levar pelo mar
me deixo rolar
eu me deixo trazer pela maré
me deixo ralé

o que é que se perde, que já não foi perdido? se tudo adquirido não reside no eu, por que chorar pelo que se perdeu? um fato da vida é essa constante conquista de sentimentos em seguida desprezados (e nossa consequente, incansável derrota).

a natureza humana se devasta, a cada ano os odeios e te amos nossa paisagem – montanhas de detritos se acumulando, tudo arrasado e arrastado por máquinas novas, lindas, caras, rodando a sangue, brilhantes ao sol e ao suor e à ruína, e nós crescendo, exímios no prejuízo (mesmo se o que perdemos foi demais pelo menos por um momento fugaz).

nosso lamento anda de rastos, melindrado, um extrato de grito perfeito e esquecido apesar de extremamente sentido por um segundo – que perder só dói uma dor de sonho, uma dor suada, silenciosa e silenciada, quente demais debaixo desse cobertor infantil, ensurdecedor (o buraco é fundo acabou-se o mundo).